A mãe de Natália dos Anjos Molina, de 33 anos, mulher trans assassinada a tiros em Campo Grande, decidiu se habilitar como assistente de acusação no processo que investiga o duplo homicídio. A medida foi tomada após o autor confesso do crime, Deivison Felipe Alves de Brito, de 30 anos, ser solto durante a audiência de custódia.
O crime ocorreu no dia 5 de junho, na Vila Taquarussu. O GOI (Grupo de Operações e Investigações) prendeu Deivison em flagrante logo após os disparos. No entanto, a Justiça concedeu liberdade ao acusado, impondo medidas cautelares como o uso de tornozeleira eletrônica e acompanhamento pelo CAPS (Centro de Atenção Psicossocial).
Com a habilitação, a mãe de Natália passa a ter participação formal na ação penal. Ela poderá acompanhar os autos do processo, apresentar documentos e requerimentos, formular perguntas ao réu e às testemunhas durante as audiências e participar dos debates em um eventual julgamento pelo Tribunal do Júri, ao lado do Ministério Público.
Em nota, a mãe afirmou não aceitar que a morte da filha fique sem resposta da Justiça. “Eu perdi minha filha. Ela estava dentro de casa, se preparando para trabalhar, quando entraram para matá-la. Quero que ele fique na cadeia pelo resto da vida”, declarou.
A família sustenta a hipótese de que o crime tenha sido motivado por preconceito contra a identidade de gênero de Natália. A mãe da vítima relatou à reportagem que a filha foi morta por ser uma mulher trans. “Eles entraram para matar minha filha lá dentro. Fazia tempo que ele vinha dizendo que ia matar”, disse. Segundo ela, as ameaças eram frequentes e levaram a família a tentar mudar Natália e o marido, Ademar, de endereço.
Em depoimento à polícia, Deivison alegou ter agido em legítima defesa após uma discussão. Ele afirmou que pegou uma arma de fogo dentro de casa, carregou o revólver e efetuou diversos disparos. A versão é contestada pela família das vítimas e segue sob investigação.
O Ministério Público recorreu da decisão que concedeu liberdade ao acusado, mas o pedido para restabelecimento da prisão foi negado. Deivison continua respondendo ao processo em liberdade, sujeito às medidas cautelares impostas pela Justiça.
A atuação de familiares como assistentes de acusação não é inédita em Campo Grande. Um exemplo ocorreu no julgamento do assassinato de Matheus Coutinho Xavier, quando a mãe da vítima, Cristiane de Almeida Coutinho, participou ativamente do Tribunal do Júri e formulou perguntas ao réu Jamil Name Filho.
