Pesquisadores da UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul) indicam a possibilidade de um Super El Niño no segundo semestre de 2026. O estudo do LCA (Laboratório de Ciências Atmosféricas) da instituição alerta que o fenômeno pode trazer impactos para a economia do estado, afetando setores como agronegócio, transporte, geração de energia e turismo, além de pressionar os preços dos alimentos no fim do ano.
As projeções divulgadas em julho pelos principais centros internacionais de monitoramento climático mostram que o aquecimento das águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial Centro-Leste pode atingir seu pico entre novembro e dezembro. As anomalias previstas variam entre 3°C e 4°C a mais na região. Esse patamar colocaria o evento entre os mais intensos desde o início das medições modernas, superando episódios como o de 2015-2016.
O El Niño altera a circulação atmosférica global ao aquecer as águas do Oceano Pacífico Equatorial, modificando os padrões de chuva e temperatura em diferentes regiões do planeta, incluindo o Brasil. Em Mato Grosso do Sul, os reflexos variam conforme a região. A tendência é de aumento das chuvas no sul do estado, enquanto as regiões norte e oeste podem apresentar comportamento mais variável.
O estudo destaca que o agronegócio está entre os setores mais vulneráveis. A irregularidade das chuvas pode comprometer o desenvolvimento de culturas como soja, milho, algodão, feijão e cana-de-açúcar. A pecuária também pode ser afetada, com redução da qualidade das pastagens, estresse térmico dos animais e aumento da ocorrência de doenças.
O pesquisador do LCA da UFMS, Thiago Rangel Rodrigues, afirma que o desafio não está apenas na quantidade total de chuva, mas na forma como ela se distribui ao longo da estação de cultivo. “A irregularidade das precipitações pode comprometer significativamente a produtividade agrícola”, disse.
Os impactos não se limitam ao campo. Quebras de safra e dificuldades no transporte da produção podem elevar os custos logísticos e pressionar os preços dos alimentos. Chuvas intensas também podem aumentar gastos com manutenção de rodovias, enquanto alterações no regime de cheias afetam o turismo, especialmente no Pantanal.
Na área de recursos hídricos, mudanças na distribuição das chuvas influenciam o nível dos rios, a recarga de reservatórios e a disponibilidade de água para abastecimento, irrigação e geração de energia. Na saúde pública, períodos mais quentes e úmidos favorecem a proliferação do mosquito Aedes aegypti, aumentando o risco de doenças como dengue, chikungunya e zika.
Os pesquisadores ressaltam que o El Niño pode ser acompanhado com meses de antecedência, permitindo que produtores, empresas e gestores públicos adotem medidas para reduzir prejuízos. “O monitoramento contínuo permite que governos, produtores rurais e a sociedade se preparem com antecedência”, afirma Thiago.
O pesquisador reforça que a confirmação da intensidade do fenômeno dependerá da evolução das condições do oceano e da atmosfera nos próximos meses. Ele defende o uso das previsões climáticas no planejamento. “Mais do que reagir aos eventos extremos, precisamos desenvolver uma cultura de prevenção baseada na ciência”, conclui.
Apesar da expectativa, ainda é cedo para confirmar a intensidade do fenômeno. Thiago destaca que os modelos mais recentes da NOAA (Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos) vêm elevando as estimativas para a temperatura da superfície do mar no Pacífico. Em algumas simulações, as anomalias chegam a 4,8°C a mais. Metodologias mais conservadoras apontam valores entre 3,3°C e 3,5°C a mais, suficientes para caracterizar um episódio extremamente intenso.
