07/05/2026
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Centro de Campo Grande tem projetos, mas moradores fogem

A tentativa de reerguer o Centro de Campo Grande por meio da atração de moradores não é nova e, até agora, tem avançado pouco. Entre projetos que não saíram do papel e iniciativas ainda sem ocupação, cresce também um movimento inverso: moradores antigos já planejam deixar a região.

Primeiro, em agosto de 2019, surgiu a ideia de transformar o Hotel Campo Grande em 117 imóveis populares, por meio do Programa Retrofit, do Governo Federal. Localizado no coração de Campo Grande, na Rua 13 de Maio, o Hotel Campo Grande foi vendido em 2023, reformado e hoje se tornou a Rede Slaviero. O plano não vingou.

Depois, em 2022, foi lançado o Condomínio da Melhor Idade, chamado também de Vila dos Idosos. A entrega oficial aconteceu em 2025, mas ainda não está sendo habitado. O condomínio fica em frente ao Horto Florestal, no cruzamento entre a Avenida Fernando Corrêa da Costa e Avenida Fábio Zahran. A localização é privilegiada: próximo à Rua 14 de Julho, perto de supermercado e do Mercadão Municipal, e bem ao lado do Teatro Prosa do Sesc (Serviço Social do Comércio). A proposta prevê reduzir o deficit habitacional na Capital e estimular o consumo na região central, que enfrenta esvaziamento e crise imobiliária.

A Emha (Agência Municipal de Habitação e Assuntos Fundiários) informou que atualmente Campo Grande possui iniciativas dentro do programa de locação social, tanto no modelo de parque privado quanto de parque público. Entre os projetos em andamento estão a Vila dos Idosos, o Condomínio Belas Artes, em construção, e o Residencial Reviva, na Avenida Fernando Corrêa da Costa, que está em fase de contratação. “O Município segue desenvolvendo projetos voltados à moradia na região central da cidade. A incorporação de projetos dessa natureza envolve etapas de planejamento, contratação e execução das obras, o que demanda tempo para sua consolidação”, disse em nota.

A ideia segue uma tendência observada em grandes centros urbanos. Cidades como São Paulo já vivem esse processo de reocupação das áreas centrais. A Capital paulista defende a reversão de esvaziamento e degradação do centro por meio de incentivos ao Retrofit, ou seja, a reforma de prédios antigos para moradias. Matéria publicada pelo Valor Econômico mostra um exemplo prático de revitalização no centro de São Paulo, onde um prédio antigo de escritórios no Calçadão do Centro Histórico está sendo transformado em um edifício residencial próximo à Praça da Sé.

Quem mora quer sair

A expectativa da Prefeitura de Campo Grande contrasta com a verdadeira realidade do Centro: pichação, furto, andarilhos e o medo dos moradores.

Moradora da Rua Maracaju há 26 anos, a comerciante Marcina Ferreira, de 68 anos, afirma que pretende deixar o local em breve. “Eu vim pra cá na época, porque meus filhos estudavam no Dom Bosco. Compramos aqui e reformamos. Ultimamente, eu estou pensando em mudar. Eu planejo mudar daqui ano que vem, eu tenho que pegar sossego”, destacou. Segundo ela, a rotina mudou com o passar dos anos. “Antes eu deitava 21h30, agora só consigo dormir 2h da manhã, por causa da barulheira dos bares”, pontuou.

Entre os principais problemas, ela cita insegurança e barulho. “O que eu menos gosto aqui é morador de rua e os bares. Já quebraram o vidro aqui da porta”. Apesar disso, a maior parte do seu consumo ainda se concentra na região central. “Compra de roupa, farmácia, só aqui mesmo. O que falta é um supermercado”, disse. Sobre ter novos moradores no Centro, por meio de programas da Prefeitura, ela faz uma ressalva. “Tem que ser pessoa mais privada, que saiba escolher casa. Não pode ser relacionado à política”.

A percepção de piora não é isolada. O comerciante Renato Moraes, de 75 anos, mora no Centro há 55 anos e também relata mudanças significativas. “Antes de abrir esses bares era muito bom. Depois, são muitos carros, motos fazendo barulho, tem dia que a gente acorda pulando da cama. A fumaceira de carro, deixa tudo sujo, tem muita pichação e cheiro de urina”, disse.

Morando atualmente em um apartamento na Rua Antônio Maria Coelho, esquina com a Rua 14 de Julho, ele paga R$ 150 por mês para estacionar o carro. Dono de uma loja de couro e calçados há 52 anos, localizada em frente ao prédio onde mora, Renato já tomou uma decisão: “Eu já prometi que eu não vou morrer aqui. Aqui acabou, a 14 de Julho acabou. Vou fechar a loja e vou morar em outro local também. Já está dando o prazo de entregar o prédio. Já estou vendendo o estoque”, destacou. Questionado se a decisão dá tristeza, ele rapidamente afirmou que não. “Quero sair daqui. À noite você só escuta gente vasculhando lixo, barulho”.

Já o marceneiro Gabriel Patriota, de 27 anos, representa uma parcela mais recente de moradores do Centro. Ele vive há 3 anos na Rua Maracaju, após se mudar do bairro Danúbio Azul para ficar mais perto do trabalho. Apesar da praticidade, a adaptação não foi simples. “No começo foi ruim, porque não tinha mercado perto, a farmácia fechava cedo”. Ele também aponta a segurança como um fator essencial para melhorar a região. Segundo Gabriel, é necessário mais policiamento. Assim como os outros moradores, ele também paga R$ 150 por estacionamento, mas com limitações. “Não tenho acesso livre, é todo um trâmite que precisa fazer, ligar para o rapaz abrir. É difícil.”

Nada simples

Na visão do arquiteto e urbanista Ângelo Arruda, que também foi um dos responsáveis pela elaboração do Plano Diretor de Campo Grande, levar moradia para o Centro é complexo. “Não se resolve construindo casas e apartamentos. Primeiro, que tem que estudar a história da ocupação do lugar, historicamente o Centro de Campo Grande nunca teve moradia”, destacou. Neste contexto, ele se refere à Rua 14 de Julho, Avenida Calógeras, 13 de Maio, Avenida Afonso Pena, Rua Barão do Rio Branco, Rua Cândido Mariano, Dom Aquino e Maracaju. “É o quadrilátero do centro histórico, de 1939. Esse canto nunca teve moradia, sempre esteve abarrotado de atividades econômicas comerciais, no máximo, como o quarteirão é profundo, o comerciante árabe tinha na Calógeras em especial, o comércio na frente e a moradia nos fundos do lote”, pontuou.

Segundo Arruda, a simples presença de empreendimentos residenciais não é suficiente para atrair moradores para a região central. É necessário criar condições que estimulem a circulação de pessoas e a permanência no local. “Tem que estimular o Centro para que as pessoas da cidade possam circular, ninguém vai morar no Centro porque tem uma loja, vai morar porque trabalha nessa loja ou porque estuda em uma escola perto ou porque é mais barato. Essas condições urbanísticas, econômicas e sociais, não são necessariamente criadas apenas com o empreendimento residencial.”

Ele também ressalta que experiências bem-sucedidas de moradia em áreas centrais envolvem ações integradas e planejamento estratégico sobre o público-alvo. “A moradia na área central que está dando certo é um conjunto integrado de ações, do qual a habitação é um componente. Quem trabalha, quem estuda, quem é recém-casado, quem está chegando… quem é o cliente dessa moradia na área central? A gente precisa definir isso; para definir, é preciso fazer pesquisa”, disse. Ele lembra que a Prefeitura precisa se aprofundar na pesquisa feita pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

Depois disso, vem outro problema que preocupa: a falta de áreas disponíveis no chamado quadrilátero histórico, o que representa um desafio adicional para projetos habitacionais. “Não temos áreas disponíveis nesse quadrilátero, teria se a prefeitura fizesse um grande projeto de desocupação, daquilo que a gente chama de miolo de quadra, quando pega uma quadra na área central e vê que está cheio de edificações sem uso. Então, precisa fazer acordo com os proprietários, derrubar tudo, fazer um acesso, construir edificações ali no Centro desse miolo a um preço que justifique esse investimento.”

Por fim, Arruda pontua que a iniciativa, segundo ele, não atende plenamente à proposta de habitação central. “A Prefeitura de Campo Grande está fazendo habitação no Centro onde? Lá no Cabreúva, dali para sair a pé para o Centro, é forçar demais a barra.”

O Creci-MS (Conselho Regional dos Corretores de Imóveis de Mato Grosso do Sul) defende que a moradia vai ajudar o Centro a recuperar a vitalidade urbana e consumo local. “Levar moradores para a região central tende a ajudar o comércio, porque aumenta o fluxo cotidiano de pessoas e cria demanda para mercados, farmácias, conveniências, serviços e alimentação ao longo do dia e da noite”, disse a vice-presidente da entidade, Simone Leal. No entanto, ela cita que essa não é uma única solução. “A experiência de outras cidades mostra que moradia no Centro ajuda muito, mas funciona melhor quando vem junto de segurança, transporte, serviços públicos e reativação de fachadas ativas e térreos comerciais. Verificamos que o Centro perdeu força também porque os bairros passaram a concentrar comércio de vários segmentos, e porque há problemas como aluguéis altos, vagas de estacionamento, imóveis fechados e queda no fluxo de pessoas”, finalizou.

Sobre o autor: Agencia de Noticias

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