O dólar subiu frente ao real a partir de maio, enquanto as bolsas dos Estados Unidos renovam recordes. Gestores ouvidos pelo Estadão avaliam que o risco maior para o investidor brasileiro é manter todo o patrimônio aplicado no Brasil.
Para Luciano Boudjoukian França, sócio e gestor da Paramis Avantgarde Asset, a alocação em mercado internacional é estratégica e não deve ser tratada como uma aposta no câmbio. Com o dólar perto de R$ 5,20, ele recomenda uma entrada parcelada para quem tem pouca exposição global. “O risco maior é ficar 100% dependente de Brasil, real e juros locais”, afirma.
O investidor pode acessar o mercado americano por meio de ETFs negociados na B3, como o IVVB11 e o NASD11, que acompanham os índices S&P 500 e Nasdaq-100. O Nasdaq já entrega ganho de quase 10% em real neste ano. França ressalta que o Nasdaq é uma aposta concentrada em tecnologia, enquanto o S&P 500 é mais indicado para a maioria dos investidores.
Ian Caó, diretor de Investimentos da Gama Investimentos, aponta que as empresas de tecnologia e semicondutores puxam o crescimento americano. O índice Philadelphia Semiconductor subiu mais de 70% no ano. Ele alerta que o momento é desafiador para novos investidores, com inflação pressionada e juros altos nos EUA, entre 3,50% e 3,75%.
Guilherme Zanin, analista CFA e professor na Eu Me Banco, cita um estudo da XP Investimentos que mostra que, em dez anos, quem manteve todo o investimento em Brasil teve menor retorno e maior volatilidade. “Maior risco é achar normal ter mais de 90% do patrimônio em Brasil”, diz.
Rodolfo Marinho, da IP Capital, afirma que o rali não é uniforme. O dinheiro novo que entra nos EUA está indo para semicondutores, energia e data centers, ligados à inteligência artificial. Ele vê distorções: a Mastercard caiu 15% no ano, com lucro subindo 15%, e a Microsoft negocia a múltiplos abaixo da pandemia.
Para quem faz seleção de ações, Marinho diz que 2026 oferece uma janela atípica. “O resultado operacional tende a funcionar como força gravitacional puxando os preços de volta.”
Além dos EUA, Europa e China também podem oferecer oportunidades. França aponta que a Europa tem empresas mais baratas em setores como bancos, indústria e energia. Já a China possui companhias descontadas, mas com riscos de governança.
Maurício Garret, do Inter, vê oportunidades na China na área de infraestrutura e energia, ligadas à corrida da IA. Ele lembra que é possível acessar mercados do mundo todo por meio de contas globais e ETFs.
Para os próximos meses, o investidor deve acompanhar a inflação americana, que ficou em 4,2% em maio, e a resposta do Federal Reserve. O juro de dez anos americano e o prêmio fiscal do país também são variáveis importantes para as ações de tecnologia, que são sensíveis à curva de juros longos.
