O filósofo e professor da Universidade de Brasília, Norlan Souza da Silva, publicou um artigo que analisa a cultura digital sob a ótica do materialismo cultural do teórico britânico Terry Eagleton. No texto, o autor argumenta que a vida online, apesar de parecer desmaterializada e flutuante, esconde uma estrutura de exploração física e econômica.
Segundo o artigo, a chamada “nuvem” não é uma entidade etérea, mas sim um conjunto de corpos que sofrem para que a experiência digital funcione. A análise cita crianças e adolescentes que passam horas curvados sobre telas, moderadores de conteúdo no Sul Global expostos a imagens traumáticas e trabalhadores que extraem minerais como lítio e coltan em condições desumanas. O texto também menciona as comunidades próximas a data centers, que sofrem com ruído e consumo de água.
O professor utiliza o referencial de Eagleton para descrever a “cultura do like” como trabalho não pago. A tese central é que cada postagem, vídeo ou meme gera dados que alimentam o maquinário de extração de valor das grandes empresas de tecnologia. Nessa visão, a atenção e o tempo de tela dos usuários seriam uma nova forma de mais-valia, extraída sem remuneração. O artigo classifica as plataformas como “feudos digitais”, onde empresas como Meta, Alphabet e ByteDance atuam como senhores feudais que controlam as regras e cobram tributos na forma de dados.
O texto ainda aponta que essa estrutura causa danos ao corpo, negando necessidades básicas como o sono e a concentração. O autor relaciona o sofrimento psíquico de jovens, como ansiedade e depressão, a uma “vingança do corpo” contra um regime cultural que o explora e o nega. A conclusão do artigo defende que a luta pela libertação começa quando se abandona a hipnose das telas e se retorna ao corpo físico e às relações partilhadas, transformando o ambiente digital em um espaço comum, em vez de um feudo.
O artigo foi publicado no portal Campo Grande News e não reflete necessariamente a opinião do veículo, tendo como objetivo estimular o debate.
