Um dado curioso chama a atenção de pesquisadores: a proporção de pessoas destras e canhotas se mantém praticamente idêntica em diferentes épocas e culturas. Na Roma Antiga, 90% da população era destra e 10% canhota. Os mesmos números aparecem na China Imperial, nos Estados Unidos da época da independência, na Inglaterra elisabetana e no Brasil do período Vargas. Essa proporção de 90% para 10% permanece estável em qualquer lugar do mundo, o que desperta o interesse da ciência.
A preferência por uma das mãos não é uma característica exclusiva dos seres humanos. Gatos possuem uma pata favorita e papagaios costumam segurar o alimento sempre com o mesmo lado. A maioria dos animais com cérebro demonstra esse comportamento. Porém, a estabilidade numérica observada em nossa espécie não se repete em outras. Entre os chimpanzés, por exemplo, a proporção é de dois destros para um canhoto.
Origem do comportamento
Uma das hipóteses para explicar esse fenômeno está ligada à origem da linguagem. A espécie humana não começou a se comunicar pela fala, mas sim por gestos. Acredita-se que o uso predominante da mão direita para fazer gestos tenha contribuído para consolidar essa proporção. Artefatos de pedra encontrados em escavações indicam que os ancestrais humanos já utilizavam mais a mão direita para criar ferramentas. No entanto, essa explicação é considerada insuficiente pelos cientistas.
Pesquisas genéticas
A ciência tem buscado identificar os genes responsáveis pela lateralidade. Inicialmente, os pesquisadores acreditavam que cerca de dez genes estivessem envolvidos. Um estudo recente apontou o gene PCSK6 como um candidato promissor. Pouco tempo depois, outras pesquisas identificaram 42 genes diretamente ligados à preferência manual, o que tornou o quadro mais complexo.
Esses genes relacionados à lateralidade também apresentam alguma conexão com variantes associadas a condições como autismo, dislexia e esquizofrenia. O efeito observado é pequeno, e ser canhoto não aumenta de forma expressiva o risco de desenvolver essas condições. Os cientistas, porém, consideram os sinais consistentes. Os circuitos biológicos que definem os lados esquerdo e direito do corpo parecem estar conectados à organização cerebral para a linguagem. Essa relação abre caminho para entender melhor a evolução do cérebro humano, mas ainda restam muitas perguntas sem resposta sobre esse mistério de dois milhões de anos.
